8.2.08

Tarde

O último post deste blogue data de Abril de 2007. Pensei voltar a escrever apenas um ano depois. Mas a vontade de reanimá-lo foi mais forte! Os últimos tempos têm sido de mudança e de descoberta de novos prazeres, que deixam a escrita à margem. Entreguei-me à vontade de fazer o que gosto e descobri novos gostos. Deixaram-me ocupada, afastada de outra vontade. Agora regresso talvez só para escrever estas linhas ou para contar a história do menino que vivia debaixo de uma árvore ou a história do menino de gostava de formigas ou história do menino que gostava de ser menino. Todas as histórias têm em comum esse menino.
Era uma vez um menino, que fizesse sol ou chuva, todos os dias calçava umas galochas da cor do céu.
- Azul! - interrompe o menino.
Era uma vez um menino, que fizesse sol ou chuva, todos os dias calçava umas galochas azuis. Tinha recebido essas galochas de um tio que vivia longe.
- O Tio Manuel mora no Canadá - o menino grita ainda mais irritado.
Tinha recebido essas galochas do tio Manuel que mora no Canadá. Um dia, o menino descobriu que as galochas não estavam no sítio do costume.
- Debaixo da cama - diz o menino.
Um dia, o menino descobriu que as galochas não estavam debaixo da cama. As galochas azuis tinham desaparecido do quarto, da casa, da aldeia.
- Aldeia do Monte - precisou o pequeno.
As galochas azuis tinham desaparecido do quarto, da casa, da Aldeia do Monte.
O princípio da história poderia ser este... o fim cada que se apresente.

30.4.07

Guardo sempre

Guardo na memória as tardes em que perdia o olhar no horizonte,
feito de rio, feito de planaltos, feito do toque do sino a rebate.
Guardo na alma a vontade de regressar, de cumprir uma promessa nunca feita mas que parece faltar cumprir.
Guardo no coração o abraço quente com que me recebes, quando me aninho no teu colo.
Guardo na memória as corridas do alto do lugar para a casa azul.
Guardo na alma as marcas de uma infância desenrascada.
Guardo no coração o desejo de me reencontrar.








29.4.07

Dr. Portugal e o Melhor Tirador de Cerveja

Não é novidade que, em Portugal, muitas das nobres personalidades deste cantinho à beira-mar plantado, adoptaram como primeiro nome Dr. ou Eng. O título académico agora ainda mais na berra, com o caso da licenciatura do PM português, está na moda e o que ousar não se dirigir a uma dessas personalidades sem essa muleta está sujeito a ser julgado por cometer um ultraje a tão digno representante da classe dos Dr.'s ou Eng.'s. Apesar de alguns considerarem um preciosismo certo é que, de facto, e na maioria dos casos, este título académico é sustentado por um diploma, conseguido, no final de uma licenciatura. O bom senso assim o diz, embora hoje em dia, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e 1+1 nem sempre são dois. Os diplomas variam de instituição para instituição, há quase para todos os gostos, os meus preferidos são os que estão em latim e os licenciados nem sequer percebem uma só letra a não ser o seu próprio nome. Muitos já se dissertaram sobre a beleza estética desse diploma numa parede, de preferência numa moldura, e ainda hoje não raras vezes, esse objecto símbolo de um estatuto, de um primeiro nome, aparece, frequentemente, num dos gabinetes desses senhores Dr.'s ou Eng.'s.
Se é verdade que esses diplomas são únicos e intransmissíveis, há outros em Portugal que se tranformaram numa espécie de souvenir para oferecer ao Melhor Namorado, à Melhor Mãe, ao Melhor Pai, ao Melhor Cão, ao Melhor Gato, ao Melhor Piriquito e ao Melhor... Tirador de Cerveja. Percebo a surpresa! Mas a verdade é que na praia de Mira, num estabelecimento comercial virado para o mar, o proprietário ostenta um título que jamais tinha visto. Ao Melhor Tirador de Cerveja, descreve o dito diploma. E atesta o documento que o proprietário é o Melhor Tirador de Cerveja do Mundo. As qualidades do senhor Tirador de Cerveja foram de facto comprovadas, mas também é certo que a engenharia de manusear uma máquina de finos não parece uma ciência difícil. Contudo, tal juízo é posto em causa quando o proprietário tem não um, mas dois diplomas de Melhor Tirador de Cerveja. Ora, agora qualquer leitor pode invocar o "Ver para crer" que dá sempre jeitos nestas descrições inusitadas. Pois há uma prova do que é descrito neste texto, mas por razões várias aguardo que a mesma me chegue às mão, ficando a promessa eleitoral de que essa será exibida neste blog.
Este episódio fez-me reflectir sobre a necessidade de ter um diploma, nem que seja de Melhor Tirador de Cerveja, o importante é que cada um invista na sua formação e se dê a si próprio uma nova oportunidade seja como Melhor Contador de Degraus, Melhor Lava Copos ou Melhor Cortador de Relva. A este investimento, acresce também a necessidade de continuarmos a tentar obter lugares ímpares no Guiness Book. Assim se faz uma grande Nação.

28.3.07

As efemérides

As efemérides teimam em ser assinaladas. Pese embora o significado das datas que, para alguns representam vitória e conquistas, estas efemérides por vezes parecem roçar o desnecessário, mas basta um olhar à volta para percebermos que talvez estas datas possam ainda representar para alguns um avanço.
A propósito do Dia Mundial do Teatro multiplicaram-se as iniciativas por todas as cidades. Mas, por razões afectivas, apetece-me centrar num evento em particular. O Cine-Teatro de Estarreja recebeu a peça Os Camones, da recém-criada Companhia de Teatro de Estarreja. Um projecto que nasce de um workshop de teatro e de repente evolui para uma companhia de teatro. Um grupo de jovens levou à cena uma rábula que em palco colocou lado-a-lado o Portugal de Camões e o Portugal dos novos Camones. Uma primeira peça que por ser primeira ainda tem algumas arestas a limar, mas que merece desde já o aplauso de quem aprecia o espírito de iniciativa, de vontade e de empenho num projecto novo, características raras hoje em dia. O Dia Mundial do Teatro é assim assinalado com a criação de uma nova companhia, ficando Estarreja mais rica e o país também.
Para assistir a esta primeira peça da Companhia de Teatro de Estarreja a sala estava cheia. Pais, mães, avós, tios, primos ou amigos encheram o espaço para ver teatro. Para muitos aquela seria a primeira vez que entravam numa sala de espectáculos, que viam uma peça de teatro. Uma feliz conquista no Dia Mundial do Teatro. Mas também são estes exemplos de mobilização em torno de uma primeira peça que lança a questão: Porque é que as salas de teatro nem sempre estão cheias? Porque é que não gostamos de ver teatro? Porque é que ir ao teatro não atrai as gerações mais novas, que preferem correr atrás de modas ou de imposições? E o preço já não é desculpa, porque os teatros desdobram-se em descontos para mais jovens...

24.2.07

As cinco pérolas do espírito português

O Ministério da Cultura está a apoiar a iniciativa Sete Maravilhas de Portugal, promovida por um consórcio. O objectivo é escolher os sete monumentos mais relevantes de Portugal. Mais uma vez, o homem privilegia a obra, cimento e esquece a nobreza do espírito destes mui nobres aventureiros que partiram à descoberta. Uma lacuna que me proponho a colmatar com a selecção das... cinco pérolas do espírito português (o número é diferente, mas vale a originalidade):

- "Então está tudo bem? Ah, mais ou menos!"
Para o típico português nunca está tudo bem, há sempre um menos bem. Mas porque é que está menos bem? Nunca sabe, mas deve haver algures alguma coisa menos bem.

- "Fazemos isto hoje. Mas para quando é? Para daqui a uma semana. Então ainda temos muito tempo"
Trabalhar com uma semana de antecedência é uma miragem. Se é só para daí a uma semana, faz-se um dia antes que ainda vai a tempo.

- Os diminutivos: cafezinho, bolinho.
O povo português propalado de alma grande revela-se pequeno sempre que se trata de pedir um café ou um bolo. Talvez algum trauma.

- Um autarca que é investigado por corrupção é uma garantia de reeleição.
Até poderia estender-me neste item, mas parece-me desnecessário recomenda-se apenas uma espreitadela por alguns jornais.

- Teve um acidente e partiu uma perna! Coitado podia ter sido bem pior
O português nunca fica contente com o que tem. Prevê sempre o pior, sobretudo, em casos em que o susto foi maior do que a desgraça.

O regresso

Após um longo interregno, imposto por obrigações ditas profissionais, estou de regresso para mais uns bitaites sobre o estado do mundo ou não, talvez sejam apenas uns bitaites sobre o estado do tempo, ou sobre a demissão, desculpem sobre a recandidatura de Alberto João Jardim que decidiu animar ainda mais o carnaval da Madeira, ou sobre a cor das unhas, ou sobre José Cid ou Paco Bandeira ou mesmo sobre nada.

16.1.07

O cheiro a liberdade anda longe, por enquanto

Apesar deste blog já ter sido acusado de falta de originalidade, por alguém que posta letras de canções, confesso que tenho saudades da Liberdade, de Fernando Pessoa. E como o blog é meu (qualquer semelhança com "esta barriga é minha, quem manda aqui sou eu" é pura coincidência, sobretudo, numa altura em que se adensa a discussão em torno do referendo sobre o aborto) fica esse cheirinho de desmazelo pelas obrigações que, por enquanto, anda longe, lá no horizonte distante:

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

4.1.07

Os riscos de um ovokinderino-dependente

"Mãe traz-me um chocolate, uma surpresa e um brinquedo! Mas isso são três desejos". A frase tornou-se célebre num anúncio da famosa marca de chocolates. O futebolista português, Cristiano Ronaldo poderia agora refazer o mesmo anúncio e escolher como slogan: "Dá gosto comê-los e construir as surpresas". O Correio da Manhã de sábado, 30 de Dezembro de 2006, trazia a história do mês, com o título "Cristiano Ronaldo viciado em kinder" (o típico português diria 'Olha menos mal, há outros que são viciados em droga e queimam o dinheiro todo. Depois quando chegam ao fim da carreira ficam na miséria porque não souberam poupar para mais tarde').
A jornalista revela que, em criança Cristiano Ronaldo ficava deliciado quando comia um ovo kinder, coisa rara, dada a situação financeira da família. Hoje em dia passa o dia a comer os ditos ovos, claro, entre alguns treinos que tem de fazer. Também do ponto de vista financeiro o típico português diria 'O rapaz também pode ter os seus vícios. Tem dinheiro para os pagar' e, neste caso, de facto, o vício até barato, pelo menos para o actual bolso de Cristiano Ronaldo.
Ao contrário do que acontecia na infância de Cristiano Ronaldo, em que o dia de comer ovo kinder era festa na terra, hoje, Ronaldo varia entre as várias ofertas de chocolate kinder. Deixo a sugestão de fazer um menú para a semana, mantendo-se sempre fiel ao ovo. À segunda-feira um ovo kinder, à terça uma barra kinder, à quarta um kinder bueno, à quinta-feira kinder délice e à sexta mais um ovo kinder.
É logo pela manhã que o jogador gosta de comer os ovos kinder. Não sai de casa sem o seu ovinho. Ora o típico português voltaria a dizer 'É de manhã que se começa o dia'.
O mais interessante é que Cristiano Ronaldo não se fica pelo chocolate. Não resiste a construir as surpresas. O típico português: 'É vê-lo doido a construir um dos amigos pernudos que traz o ovo kinder. Quando de vez em quando, durante um treino, se senta no banco do Manchester United saca logo de um para o construir. O rapaz é um artista. E já ouvi dizer que aquelas faltas todas que ele sofre pode ser por causa de ter tempo para construir mais um amigo pernudo, enquanto o árbitro discute com o jogador adversário.'.
Termino alertando para o risco que os ovokinderino-dependentes correm. É que apesar de cada ovo kinder conter na sua composição 32 por cento de leite, podem rapdiamente tornarem-se diabéticos. O exagero nunca foi bom para ninguém. A não ser que seja um às refeições, à semelhança do copo de vinho tinto.

A maldição das aplicações informáticas

"Os 883 médicos recém-licenciados que hoje [quarta-feira, 3 de Janeiro de 2007] deveriam começar a sua actividade profissional nos hospitais nacionais continuam à espera de serem colocados pelo Ministério da Saúde". São portugueses? Sim. Esta foi a primeira reflexão depois de ter lido a notícia do Público com o título: "Quase 900 jovens médicos à espera de colocação".
Dada a propalada escassez de médicos em Portugal parecia que a realidade retratada pelo jornalista era a de um outro país. Mas afinal os recém-licenciados são bem portugueses e aguardam que o Ministério da Saúde publique a lista de colocações para que iniciem o antigo internato geral nos hospitais. Atraso explicado por um erro informático. O ministro da Saúde, Correia de Campos não tardou em informar que foi usada uma nova aplicação informática que apesar de ter sido testada trouxe problemas.
A primeira ruga de preocupação apareceu no meu rosto quando li precisamente a justificação do governante. Rapidamente, recuei no tempo até ao episódio de uma outra aplicação informática nova, usada nas listas de colocação de professores. Não devemos encarar este assunto de ânimo leve. A maldição das aplicações informáticas novas pode andar aí e a provocar vítimas. Colmatar a lacuna de médicos no país é assim adiada transformando o homem numa vítima da máquina.

28.12.06

Saí porta fora

Saí porta fora. Senti o frio entranhar-se no corpo. A carne arrefeceu. O coração continuava desenfreado. Os olhos encheram-se de água. O alcatrão bebeu a primeira lágrima. Dei o primeiro passo. Sem direcção andei. A carne aqueceu. O coração acalmou. Os olhos encheram-se de água. Chorei. O ramo caiu. Fiquei imobilizada. Fixei o olhar naquele ramo. Recuei no tempo. Sentada na soleira da porta da casa da minha avó vi o avô chegar com a velha motorizada atrelada com um carrego de lenha. A descer a vereda, a minha avó carregava os sacos brancos. Corri para dentro. Esperei. O sorriso dela encheu-me a alma. E a meia-lua doce que desembrulhava matou-me a gula. O cheiro do café chamou o avô. Sentou-se à cabeceira da mesa.
Despertei. A carne arrefeceu. O coração acelerou. Chorei. Um passo mal dado atirou-me para o chão. Apalpei o tornozelo. Gritei. Como no dia em que uma pedra me arrancou-me uma unha do pé. A minha mãe apareceu à porta agarrou-me nos braços. A unha voltou a crescer.

A cambalear, andei. Procurei no horizonte, como o dia em que perdi a pulseira de ouro com pedras azuis, num casamento de alguém, hoje, desconhecido ou apagado da memória. Contrariei a minha mãe e perdi-a.

Encontrei uma luz intensa. Parei e encontrei-me no elevador frio cinzento, amarrada a uma maca. Descontrolada por uma anestesia geral. A precisar do meu pai.

Persegui essa luz. O coração quase que saltava da boca. A carna estava mais quente do que nunca. A respiração descontínua apertava-me o peito. Persegui um sonho, conquistei uma vida, pelo caminho foram ficando os ramos, os gritos, as perdas e o descontrolo. Sinto saudades de tudo.

Saí porta fora e entrei no carro. Ouviu-se o barulho do motor e partimos. Acenei à minha mãe e voltei-me para a frente. Acordei em casa.

Desejos e uvas passas

"As uvas passas são eficazes contra a tosse crónica e desinterias. Zumbido dos ouvidos, insónia e outras afecções de caráter nervoso também desaparecem depois de se ingerir regularmente as uvas passas, devido ao seu poder calmante".
Talvez esta seja uma das razões que levam o povo a engolir na passagem de ano 12 uvas passas acompanhadas de 12 desejos (é só para enganar, a verdade está no efeito calmante para as desinterias), alegadamente, a cada uma das badaladas. Muitos nem ouvem as badaladas vão engolindo uma atrás da outra; outros optam por encher a boca com as uvas passas e outros como eu ficam pela primeira uva passa porque NÃO GOSTAM DE UVAS PASSAS. Talvez este ano experimente com chocolates.
Também é habitual alguns desistirem a meio porque se esqueceram dos desejos a pedir. Ficam algumas sugestões:
1 - Desejo poder comprar uma motosserra para ter na dispensa e quando for necessário impressionar os amigos;
2 - Desejo que deixem de cobrar a electricidade, o gás, a água, a renda, as taxas sobre os cartões multibanco e também o pão;
3 - Desejo que o Marco Paulo tenha mais 40 anos de carreira, mas agora talvez para experimentar em Espanha, numa maluqueira;
4 - Desejo que as novelas da SIC sejam substituídas por programas pseudo-intelectuais (não é bem verdade, mas contribui para aumentar o meu status quo);
5- Desejo que este ano um português bata o record do maior pastel de nata (ou pastel de Belém) do mundo;
6 - Desejo que haja Ferrero Rocher durante o ano todo e não só no Inverno;
7 - Desejo ter uma máquina de tripas no escritório;
8 - Desejo que seja criada em Portugal uma equipa sénior feminina de futebol (podemos imitar nuestros hermanos em algumas iniciativas);
9 - Desejo que o Sapo não páre de cortar as mensalidades, de preferência até que custem zero cêntimos e ainda assim acho que devia haver descontos para jovens até 30 anos ou para famílias carenciadas que, apesar das suas dificuldades financeiras têm internet em todas as divisões da casa;
10 - Desejo que também haja aparições na Cava de Viriato (esta ideia tem direitos de autor e não são meus, mas passo a citar "Se a outra apareceu na Cova de Iria porque é que não há aparições na Cava de Viriato");
11- Desejo que seja permitido navegar no rio Tejo, com embarcações a motor;
12 - Desejo que Zé Albano continue a publicar os seus poemas acrósticos.
Bom Ano! E use e abuse destes pedidos. Depois se algum dos desejos se concretizar avisem...

4.12.06

A jurisprudência do provedor - Pr. II

Foi de grande arrelia,
A discussão entre a Gueixa e o Raimundo.
E até nem me vai dar azia,
Perorar sobre este assunto.
Agora que também já contribui para a elevação cultural deste blog com uma pequena trova da minha autoria, vamos lá tratar de assuntos menos sérios.

Já não assistia a uma disputa tão interessante desde aquele dia de chuva em que tive oportunidade de ir ao Estádio Dr. Alexandrino de Subribas ver a partida entre o Futebol Clube da Moita do Boi e a Associação Desportiva de Fornotelheiro, a contar para o Campeonato Distrital de Terras do Bouro.

Naquele que foi o post mais comentado até hoje, contabilizei (ao longo de uma noite inteira, à luz de um Petromax quase sem gás) um total 697 palavras. Contas por alto, a Gueixa incitou, irresponsavelmente, MM a deixar fluir a sua veia artística em 102 palavras, enquanto que Raimundo, mais verborreico, defendeu, insolentemente, a edição de imagens do “belo sexo” em 551. Pelo meio, X-girl (nem vou querer saber porque é que deixou de ser rapariga, se é fã dos X-Men ou se se identifica com um X-acto...) balbuciou 44 palavras em defesa das posições de Gueixa. (Não vale a pena contarem os caracteres de cada um para ver se a soma está certa, porque eu não vou querer saber!)

O mais interessante é que para chegarmos aqui, MM limitou-se a escrever 13 palavras e a citar e a copiar 86! Se isto era um engodo para alimentar uma polémica entre os leitores, não podia ter corrido melhor.

Mas voltemos aos nossos contendores, a precisar de pimenta na língua. Se analisarmos bem a linguagem dos comentários, para se equipararem a tasqueiros de botequim, só lhes faltou acusarem-se mutuamente de “serem incapazes de desenvolver pensamento abstracto”, ou de “advogarem preferências estéticas ao nível dos mais baixos estratos sociais”. Alguma contenção será necessário em intervenções futuras, ainda que as observações de ambos não deixem de ser pertinentes.

É obvio que ninguém quer que a MM solte a artista que há nela, a não ser que queria partilhar com todo o mundo as suas experiências de criação sexual, tal como referi na minha primeira intervenção. E, mesmo nesse aspecto, tenho dúvidas do interesse de tal tema.

Daí que proponha uma complementaridade entre as ideias de Gueixa e Raimundo: poderíamos ter um poema de Friedrich Hoderlin escrito com chantilly em barrigas desnudadas de modelos femininos; umas costas sensuais onde se reproduziria "O Grito" de Edvard Munch ou umas longas pernas (bem depiladas) onde se colariam pedaços de um conto, pós-moderno, com o mínimo de linearidade possível na ordem do tempo da narrativa. Como é preciso agradar a todo o público, porque não um homem – vestido – a empunhar uma cartolina com um poema acróstico da autoria desse incomparável autor, que é o Zé Albano de Vales do Rio? Ou uma mega produção em fotonovela, inspirada na peça “O Inferno”, de August Strindberg, mas com actrizes da indústria pornográfica.

É a minha sugestão. E, como sabem, o meu objectivo é apenas que este blog tenha mais audiência que a mira técnica da RTP 2, às cinco da madrugada de sábado.

Não voltem é a discutir o que estimula, ou não, as hormonas, sabendo-se que hormonas há muitas e estimulações também!

Afinal de contas, o Friëdërisch Friztënschwärzköpfiéöprätödödiäsëfächävöräldën, estimula-se mais com a desordenada capilar da empregada que com a suposta noiva, peitoralmente muito mais estimulante. Gostos estanhos há muitos e vocês – Gueixa e Raimundo – deviam reflectir sobre se se conhecem verdadeiramente!

E peço desculpa porque me atrasar,

Na redacção do meu comentário,

Mas a Cabala com o seu argumentário

Contra mim fez entrar, uma providência cautelar

Despeço-me com amizade,
Arquitecto Provedor, Dr. Interaccionista Simbólico

1.12.06

A culpa é da cabala

Uma hedionda cabala - a meretriz responsável por tudo em Portugal - impediu o Arquitecto Provedor de cumprir o "deadline" de publicação do seu mui jurisprudente conjunto de doutas palavras neste blog. Para introduzir algum nível de acalmia nas mentes mais insultuosas - as mesmas que zurziam por falta do habitual aconselhamento ideológico - amanhã, dia 2 de Dezembro deste mês natalício, do ano da graça de 2006, poderão sorver a categórica sabedoria do Interaccionista Simbólico que amanhã irá fazer chegar a iluminação às vossas casas.

Manifesto Anti-Boi – Tudo o que ficou por dizer

Um manifesto de trazer no bolso para uso necessário

Basta Boi basta!!!
Alguém que escolhe um Boi para chefiar é alguém que nunca o foi. O Boi é um indigente, indigno e cego! É um charlatão e um anormal, e só pode parir abaixo de zero!
Abaixo o Boi!
Exploda o Boi, Exploda! Pim!
O Boi é um burro impotente!
Um Boi ao leme é uma canoa em seco!
O Boi é um cigano!
O Boi é meio cigano!
O Boi saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos chefiar que é a única coisa que ele faz!
O Boi pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!
O Boi é um habilidoso!
O Boi veste-se mal!
O Boi usa ceroulas de malha!
E PARA QUE FIQUE NOS ANAIS DA BLOGOSFERA O BOI É FLATULENTO!
O Boi especula e inocula os concubinos!
O Boi é Boi!
O Boi é ...!
Exploda o Boi, Exploda! Pim!
O Boi fez uma habilidade que tanto o podia ser como não ser, ou má ou boa, ou de qualidade ou empestada!
E o Boi acha que teve claque! E o Boi acha que teve palmas! E o Boi até agradeceu!
O Boi é um convencido!
Não é preciso ir pró palanque pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro (para quem não sabe, de acordo com o dicionário pantomineiro é aquele que engana ou intruja)!
Não é preciso disfarçar-se pra se ser anormal, basta falar como o Boi! Basta não ter humildade, nem modéstia, nem ser capaz de ouvir os outros ou reconhecer que não tem razão! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser fingido, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Boi!
Exploda o Boi, exploda! Pim!
O Boi nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!
O Boi é um autómato que deita pra fora o que a gente já sabe o que vai sair... Mas é preciso pouco para saber isso!
O Boi é um soneto dele-próprio!
O Boi em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.
O Boi nu deve ser horroroso!
O Boi cheira mal da boca e não só!
Exploda o Boi, exploda! Pim!
O Boi é o escárnio da consciência!
Se o Boi é português eu quero ser espanhol!
O Boi é a vergonha da classe!
O Boi é a meta da decadência mental!
E ainda há quem não core quando diz admirar o Boi!
E ainda há quem lhe estenda a mão!
E quem lhe lave a roupa!
E quem ache que o Boi é boa pessoa!
E ainda há quem duvide que o Boi não vale nada, e que não sabe nada, e que nem é simpático, nem decente, nem zero!
Vocês não sabem quem é Boi? Eu vou-lhes contar:
A princípio, por comentários, achegas e outras preparações com as quais nada temos que ver, pensei tratar-se do Boi, o que merecia uma oportunidade, apesar do passado. Mas o ilustre senhor não descansou enquanto não pôs as manguinhas de fora. Quando subiu o pano, a princípio, não fui capaz de distinguir porque era tão amargo e só depois de meia dúzia de dias é que descobri que era negro, como uma personagem do mal, porque gostava de atormentar os outros. Desisti de estar à espera do nascer do sol.
O Boi vem descendo uma escada estreitíssima e vem só, traz também o seu ego do tamanho do mundo e eu cheguei a espreitar a escada, mas só havia espaço para o Boi e a sua voz. Pouco depois disseram que o Boi trazia calcões vermelhos e só lhe faltava o tridente.
Sozinha em casa e às escuras, dando a entender perfeitamente que o Boi fez indecências, quase salto pela janela com grande mágoa. E ainda hoje os que ainda são vítimas do Boi têm ocasião de observar as grandes arrufadas de maldicência que expele pela boca, da qual cheira mal.
Continue o senhor Boi a falar assim que há-se ganhar muito com os inimigos e há-de ver que ainda apanha pela cabeça abaixo com uma estátua de prata feita por um ourives do Porto e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional das "Vítimas a favor do fim do Boi". E com festas da cidade plos aniversários da explosão do Boi e sabonetes em conta “Boi” e pasta Boi prós dentes e graxa Boi para polir as pratas e comprimidos para a azia Boi e autoclismo Boi e Boi, Boi, Boi, Boi... E limonadas Boi-Magnésia. E fique sabendo o Boi que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor do livro “O pior Boi do mundo” é o Boi que num rasgo memorável de modéstia só consentiu que era Boi para garantir a sua glória.
E fique sabendo o Boi que se todos fossem como eu haveria tantos papéis a voar pelo céu a dizer que ele era um Boi que levariam dois séculos a eliminá-los da rua.
Mas julgais que nisto se resume a corja de bois que por aí andam? Não Mil vezes não!
Exploda o Boi, exploda! Pim!
Portugal com este Boi conseguiu renovar a classificação do país mais atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degredados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado, sem este Boi!
Exploda o Boi, exploda! Pim!*

*Adaptação do Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros

NB1. O sentido pedagógico perseguido por este blog justifica a escolha da inclusão deste texto, não só numa intenção nítida de promover um dos melhores textos de Almada Negreiros, mas também dar a cada um a possibilidade de proferir um insulto, de índole literária e cultural. Imprima e traga sempre uma cópia no bolso, nunca se sabe quando pode dar jeito.

NB2. O animal Boi não se deve sentir ofendido por este manifesto, porque o animal é mais digno que o visado Boi. Em nome de todas as vítimas, espero no futuro apenas conhecer-te por Boi, esquecendo que algum dia tiveste um nome.

27.11.06

As flores (neste caso, os girassóis) são o melhor do mundo



“O melhor do mundo são as crianças”. A frase foi imortalizada por Fernando Pessoa. No entanto, esta poderia ser bem diferente, se Pessoa tivesse conhecido a Floribela. Nos tempos que correm, o melhor do mundo são as flores. Elas estão por todo o lado. Ninguém escapa a esta febre ‘Floribela’, para a qual o antídoto ainda está longe de ser descoberto.

Não bastavam as saias, casacos, calças e camisolas… Acabo de encontrar numa estafante visita ao hipermercado*, que existe ainda o sortido Floribela e o chocolate Floribela. Sei que todos estão a pensar que também já existia o sortido e o chocolate Noddy, mas ele, ao menos, tinha um carro amarelo e ar de boneco.

Já a Floribela não passa de uma personagem de uma telenovela que vive à espera que o seu príncipe encantado se decida se quer viver feliz para sempre com ela ou não. Ou melhor é um simples upgrade para alguns da Cinderela, para outros, como eu da Branca de Neve e os Sete Anões. E ela, Branca de Neve a pobrezinha não teve direito a sortido e chocolate com marca própria. Levou um princípe e ficou toda feliz. Ao menos, esta conseguiu que ele se decidisse, por isso mais do que ninguém merecia ter direito a um chocolate Branca de Neve. Em vez disso, deram-lhe com farinha.

Confesso que não parei para observar as características do sortido e chocolate Floribela. Mas fiquei curiosa sobre qual o sabor do chocolate, pode até saber a flores... talvez na próxima (espero que seja longínqua) visita ao hipermercado possa admirar com maior atenção cada um dos produtos.
Desculpem insistir, mas só falta o Pai Natal vestir-se de Floribela...

* Por natureza, não me é fácil entrar num hipermercado para fazer compras. São milhares de produtos, todos quase iguais e só variam no preço. Os menos abastados são obrigados a perscrutar todos os preços à procura do mais barato e os mais abastados perdem tempo a avaliar as características de uns e outros, sérios crentes de que há diferenças. Mas o pior é entrar num hipermercado, em Dezembro, num fim-de-semana que, na compra de brinquedos é oferecido um desconto de 50 por cento em vales de compras. Um conselho: Não experimentem isto no hipermercado próximo de vocês.
NB. Um obrigada ao meu grande amigo pela fotografia de qualidade que me facultou

20.11.06

O Perfume



Já respiraste alguma vez, leitor,
Com gula, embriaguez, lento desejo,
Os ares de incenso que enchem uma igreja
Ou o esquecido almíscar de uma bolsa?

Profundo encanto, a ir-nos exaltando
Quando o presente restaura o passado!
Assim num adorado corpo o amante
Colhe a flor mais selecta da saudade.

Dos cabelos espessos, tão elásticos,
Turíbulo de alcova ou de bordel,
Subia um cheiro indómito e selvagem,

E dessas musselinas ou veludos,
Impregnados de pura juventude,
Ia alastrando um perfume de peles.


Baudelaire, in Flores do Mal


"Já respiraste alguma vez, leitor"
O cheiro do mar, de Vale dos Homens

15.11.06

A jurisprudência do provedor - Pr. I

De facto. Tal como foi anunciado, eu ando por aqui. Na verdade, não era bem por aqui que eu pretendia andar, mas como o blog do Pacheco Pereira já tem um provedor que, por acaso, é o autor que, por acaso, é o único leitor que, mesmo assim não tem pachorra para ler tudo até ao fim, optei por aceitar o convite de MM para dar alguma credibilidade cientifica a este espaço de egocentria gratuita.

Não esperem de mim elogios fáceis, nem mesmo elogios, ou até mesmo fáceis. Terei dois olhos desatentos à actualidade deste blog e limitar-me-ei a seguir o caminho de apreciação superficial dos conteúdos, na medida em que não tenho pachorra para estudar os dossiês.

Ainda assim, tenho a certeza que a mais ínfima das minhas sapientes análises trará mais ensinamentos para as três pessoas e um quarto que visitam este blog, que 36 posts do Pacheco Pereira (mais as 734.273.927 páginas e meia da biografia do Álvaro Cunhal), toda a literatura produzida pelos tribunais europeus no âmbito do processo de lenocínio de Belmonte e uma compilação de receitas do Doce da Casa, em fascículos, entregue com o 24horas ou o Expresso. Tudo junto!

Esta é a minha modesta declaração de princípios inicial e, como nem uma sandes de courato vou receber por isto, espero pelo menos fazer jurisprudência na maior parte das coisas que direi e provar que continua a não ser “justo nem razoável que persistam enviesamentos masculinocêntricos tão acentuados na selecção das questões políticas agendáveis” (Sampaio: 2004).

Se quiserem endereçar-me dúvidas ou apresentar sugestões, não o façam! Não vou ter tempo para ler! Se persistirem nessa hedionda intenção, façam-no para as caixas de comentários das minhas apreciações. Afinal, não vale a pena tirar o protagonismo à dona do blog, mais magnânime que o Pacheco Pereira e sensivelmente mais gira que a Odete Santos.

PS: Todas as vezes que a minha voz jurisprudente falar, comentarei o que bem me apetecer, destacando depois alguns comentários cuja escolha obedecerá ao critério, naturalmente, do que bem me apetecer.

PSD: “Boca no comentário” será o lugar para esse segundo momento.

CDU/PEV: Cá vão os primeiros “Boca no comentário”.

“BOCA NO COMENTÁRIO I”:
- Orientações de um blog com sucesso:
Todas as ambições culturais dos visitantes deste blog são muito bonitas e elevadas, mas, de facto, a malta poderá entusiasmar-se muito mais com a vida amorosa/erótico/sexual de MM. Até porque a coisa tinha começado bem, principalmente com a referência aos pilaretes fálicos da Covilhã. Recomendo à Gueixa que incentive mais este tipo de posts.

“BOCA NO COMENTÁRIO II”
- Os poetas de pacotilha:
Algures no mundo, Alex compôs uma lírica de inspiração erótico-burguesa, com especial incidência na apanha do míscaro (cujo nome científico é Tricholoma equestre, informação que vos deixo, sine pecunia) e dos pinocos. De facto, uma composição que rivaliza com alguns mestres do surrealismo nacional, autores de prosas como “Meu Lotus azul, ópio do povo, Jaguar perfumado tigre de papel” (GNR: 1992), ou ainda, “Há quanto tempo não comia um bifedestes, um bifedestes, à portuguesa. Ai que saudades qu’eu tinha d’um bifedestes, um bifedeeeeeeeestes à portuguesa” (Nel Monteiro: 1995). Continue o bom trabalho Alex, cá esperamos mais destas. Se conseguir incluir bifes acém nos seus delírios, ficam ainda mais suculentos.

Despeço-me com amizade,

Sancho de Interaccionista e Simbólico, Dr. Provedor
(Interaccionista simbólico, para os mais chegados, para os que sabem onde ele mora e onde estaciona o carro ou então que lhe conhecem os podres)


12.11.06

Ele anda por aí

A necessidade de regular um blog que se tem revelado demasiado selvático, destacando-se da blogosfera nacional, impõe que, a partir do dia 15 deste mês, o provedor Interaccionista Simbólico passe a analisar os piores posts e comentários deste blog.

Common People

Somos pessoas comuns.
Quero ser andróide.
Há uma tempestade lá fora.
Às vezes quando olho fundo nos teus olhos, eu juro que vejo a tua alma.
Faz-me impressão o trabalho que se tem em ser superficial.
O homem é um ser inominável.
Sou egocêntrica, juro que vejo o mundo a rodar à minha volta.
My name is Men, Car men.
Era de noite e levaram-me com ele.
Eu nunca esqueço num sobrenome.
A sujidade invade-me as entranhas.
Andando pelas ruas, perdi-me.
Não me lembro.
I just can't get enough.
Carrego ao ombro um lenço branco que levo à minha amada.
E companhia.
No problem.
Nunca me engano e, raramente, tenho dúvidas.
Não consigo parar.
O Pai Natal existe?
Vou acabar com ele.
Está-me a chover em casa.
Não estou bêbedo, mas há quem esteja.
How are you?
Visto-me de riscas para impressionar o desconhecido.
O que é a arte?
Um tecto repleto de cogumelos de humidade e um Pollock na parede.
We are just common people.
N.B. Rasgado elogio à primeira instalação artística colectiva que publico neste blog. Aos co-produtores, o meu bem haja.

9.11.06

Pai Natal e Menino Jesus trocam "prendinhas"

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez decretou que, em nenhum edifício público do país devem ser usadas decorações contendo imagens ou bonecos do Pai Natal, refere o Público, de 9 de Novembro. Declarado anti-americano, Chávez determinou que os símbolos da tradição natalícia americana fossem substituídos pelos presépios com o Menino Jesus nas palhinhas deitado e outros elementos que caracterizam a tradição natalícia da Venezuela. Uma decisão, que o chefe da nação justificou com a necessidade de "restaurar as tradições nativas".
O boicote ao Pai Natal poderia deixar muitas crianças tristes, mas enquanto proíbia o Pai Natal, o Governo de Chávez tratou de compensar os pequenos, oferecendo a cerca de um milhão de papás funcionários públicos e reformados o equivalente a três subsídios natalícios. Uma prenda que costuma cair no sapatinho apenas no último mês do ano, mas que para deleite de muitos foi antecipada e entregue, curiosamente, a poucos dias das presidenciais venezuelanas, marcadas para 3 de Dezembro.
Mas importa focar atenções na nobre intenção do presidente venezuelano de "restaurar as tradições nativas". A decisão avançada pelo diário venezuelano Últimas horas, citado pelo Público, poderá implicar o fim de uma carreira de sucesso do velhinho de barbas brancas vestido de vermelho pela Coca-Cola, não pela idade avançada que tem, mas porque se outros países seguirem o exemplo, em nome da preservação da identidade de cada nação, a figura bonacheirona do Pai Natal poderá ser extinta. Recorde-se que "num mundo cada vez mais globalizante, os países devem distinguir-se do todo, apostando no que lhes é intrínseco, no que constitui a sua cultura identitária”. Entendi que o melhor seria colocar esta afirmação entre aspas, porque já a ouvi imensas vezes, não posso citar os autores, porque quase todos, que se preocupam com a afirmação da cultura portuguesa, costumam citá-la.
Por outro lado, o embargo ao Pai Natal pode sair caro a Hugo Chávez. As próximas gerações poderão acusar o presidente da Venezuela de ter aberto um inusitado conflito natalício. A temática não é nova, mas ganha redobrada importância a poucos dias do Natal.

Decidido a pôr fim ao idoso senhor que apesar da barriga, agilmente, desce pelas chaminés de 24 para 25 de Dezembro, Chávez poderá ao mesmo tempo abrir as hostilidades entre o Pai Natal e o jovem Menino Jesus nas palhinhas deitado. O eventual conflito está já a ser antecipado por especialistas em conflitos natalícios, que avançam a iminência de uma invasão de Belém, pelo Pai Natal. Para já, o Menino Jesus poderá levar um avanço neste conflito a avaliar pela idade física. As melhores músicas são também as do Menino Jesus. Importa ainda referir que, enquanto o Pai Natal distribui presentes, o Menino Jesus tem ouro, que os três reis magos lhe ofereceram quando nasceu. Uma vantagem decisiva na hora de convencer os adultos e, por consequência, as crianças.
No entanto, há que contar com o exército de ajudantes do Pai Natal, os duendes que se dedicam a embrulhar presentes. Apesar da simpática tarefa destes ajudantes, é necessário não descurar que estes corajosos são também conhecidos como exímios atiradores de bolas e pinheiros de natal. Também o frio que se faz sentir em alguns países poderá ser uma vantagem para o Pai Natal que, naturalmente, tolera melhor as baixas temperaturas, enquanto o Menino Jesus para sobreviver ao frio teve de ser aquecido pelo bafo de uma vaca e um burro, uma vez que a única peça que o protegia era uma espécie de tanga. Ao lado do Pai Natal estará também a temida Mãe Natal, que, apesar de ser vulnerável, dada a sua dependência pelo incenso (há sempre um pauzinho a ser queimado no Pólo Norte), é reconhecidamente, uma óptima cozinheira e destaca-se na arte de atirar tachos.
Os especialistas dividem-se quanto à eventual duração do conflito. Reina também a dúvida quanto à existência de armas de destruição maciça. Correm rumores de que o Pai Natal terá contratado Donald Rumsfeld, agora no desemprego, para convencer as Nações Unidas pelo Natal (NUN)da existência das ditas cujas em Belém.
Alguns pedopsiquiatras estão preocupados com o impacto do conflito junto das crianças, sobretudo, as que se portaram bem durante o ano, já que se poderão sentir muito defraudadas. É que os presentes que o velhinho de barbas brancas costuma deixar em troca de um copo de leite e um prato de bolachas podem não aparecer na manhã de 25 de Dezembro. No entanto, este blogue apurou, que o Super-Homem já se ofereceu para conduzir as renas. Esta é uma boa notícia. Enquanto o Pai Natal e o Menino Jesus trocam... "prendinhas", os mais pequenos podem estar descansados que as prendas, ou melhor, o Natal está a salvo.